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domingo, 14 de outubro de 2007

Ídolos de barro

(Ernesto Caruso, 13/10/2007)
Nem o imortal Mestre Valentim lhes daria vida heróica ainda que estivessem ornando uma sequer prateleira de brechó ou um imponente monumento, como fizeram em homenagem ao outro símbolo do impatriótico, Prestes, lá em Palmas, Tocantins.
Impatrióticos, apátridas.
Quem declara no Senado que empunharia armas em favor de uma nação estrangeira se conflagrada com o Brasil, não poderia ganhar um outro epíteto. Por coincidência também foi um capitão.
Gustavo Gorender, comunista contemporâneo, lado a lado com Prestes, como membro do Comitê Central do PCB e depois fundador do PCBR, o desqualifica no livro de que é o autor, COMBATE NAS TREVAS, atribuindo-lhe culpas pelo insucesso de operações e particularmente pelo impiedoso assassinato, que chamam de justiçamento, de Elza Fernandes, uma jovem analfabeta que com 16 anos se amasiara com Miranda secretário-geral do PC, ambos presos em 13 de janeiro de 1936 e ela libertada a seguir, julgada traidora e executada sanguinariamente meses depois, a despeito de vozes que se opunham ao tal julgamento, como a de Molares, um dirigente desde os anos 20, afastado sumariamente. Várias cartas de Prestes, que se escondia junto com Olga Benário em uma casa no Méier, apóiam o julgamento e a condenação, sendo que na de 19 de fevereiro “com uma descompostura violenta” chama os membros do secretariado nacional de vacilantes e medrosos. (páginas 240, 241, 242)
Lamarca é o outro que foi capitão do Exército, desertor e ladrão de armas do quartel onde servia. Furtou-as. Não foi em uma ação de combate, após se declarar contrário ao sistema vigente, como manifesta vontade.
Alfredo Sirkis, em OS CARBONÁRIOS não faz por menos quando lembra do tiro certeiro com que Lamarca atinge o segurança do embaixador Giovani E. Bucher, da Suíça, e o mata. Refere-se a quem era chamado de comandante como possuidor de pontaria legendária e “estava ligada a estórias de outros combates”, citando entusiasticamente e com minudência, como exemplo, “sua primeira morte” a do guarda durante um assalto a banco. “Lamarca apoiou o Smith & Wesson de competição na palma da mão esquerda e deu dois tiros rápidos, a mais de 50 metros. Um no queixo, um em cheio no capacete do guardinha, que teve morte instantânea.” Destaca do modelo com quem convivia no aparelho-cativeiro do seqüestrado e concluindo que “via as próprias limitações teóricas e culturais com certo complexo”, até pelas palavras atribuídas como suas: “Eu não tenho nível cultural pra lidar com um embaixador.” (...pagina 293...)
Os dois autores também discorrem sobre o assassinato a coronhadas do Ten Alberto Mendes Junior da PM de São Paulo pelo grupo de Lamarca. É de estarrecer a leitura de Gorender: “... a guerrilha não tem condições para a guarda de prisioneiros. A norma costume ser a de desarmá-los e libertá-los. O pequeno grupo chefiado pelo ... Lamarca agiu segundo a norma com todos os soldados aprisionados. Menos com o tenente da Polícia Militar surpreendido por uma coronhada na cabeça, desferida pelas costas” (Isto para quem já estava preso. Eram muito românticos, não Guevara? Não, Prestes, como foi com os colegas de farda, dormindo?) “e que o deixou inconsciente,” (Deve ter servido de anestesia, para justificar a consciência deles, escribas e autores) “e morto pelas coronhadas seguintes. ... Um tribunal fictício deu o caráter de julgamento.”
Gorender reconhece outro gesto abominável: “Não vejo outra maneira de classificar o atentado ao marinheiro inglês David Cutheberg senão como assassinato puro e simples.”
Aprenderam com gente tipo Fidel Castro, grande líder —“comandante” — como o chamam, parceiro de Che Guevara. Fidel, civil, fardado desde 1959 no poder, após tomar o lugar de outro ditador, Fulgêncio Batista. Agora doente passa o governo de Cuba, por decreto, para o irmão. Pode isso? Como se explicar tamanha desfaçatez? Chamar de democracia? Servir de exemplo? Modelo para Chávez?
Será para o Brasil?
Um desses ídolos, Guevara, é o homenageado pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que reverencia a data da sua morte em 1967. Roubos, assaltos, seqüestros, mortes e terrorismo foram as práticas do MR8 à semelhança do que lhes serviu de modelo: Che Guevara.
Presidiu julgamentos sumários culminando pelo fuzilamento de prisioneiros, que assistia fumando charutos.

A argila pode ser a mesma, mas a água que a fez maleável, as mãos e mentes que lhe deram forma estavam impregnadas, manchadas e conspurcadas com o sangue das suas vítimas e os que das atrocidades participaram e ainda estão vivos carregam as imagens do sofrimento que provocaram.